segunda-feira, 18 de maio de 2009

No sinal vermelho

Já pararam para observar os artistas que se apresentam nos “zebra-crossing” da vida? Pois é, essas pessoas, em geral muito jovens e quase inexplicavelmente felizes, apresentam números de malabares e algumas singelas encenações durante os efêmeros 30 segundos vermelhos em um cruzamento. Na foto ao lado, Alan Júnior e Liro John fazem malabarismos com tochas no cruzamento da Avenida Marechal Rondon com a Rua dos Mineiros, na cidade de Ji-Paraná-RO, e autorizaram a publicação desta foto.

Trânsito é sempre trânsito, mesmo em cidades que não se caracterizam como grandes centros. Motoristas de toda sorte: jovens, adultos ou idosos; homens ou mulheres; atrasados e impacientes ou não; nervosos ou tranquilos; generosos ou egoístas. Para essa platéia variante, deslocada dos assentos das casas de shows para os respectivos assentos de seus automóveis, e portanto imprevisível, esses artistas se apresentam sob sol ou chuva, estampando semblantes de alegria e de compromisso, não com o sistema, mas com a vida que elegeram para si, proporcionando instantes sui generis aos que tiveram a sorte ou o azar de terem posicionado seus veículos nas primeiras fileiras que proporcionam melhor visibilidade.

Digo “inexplicavelmente felizes” porque eles estão na contramão do que social e estupidamente se estabelece como sinônimo de felicidade: o sucesso. Recebem pela apresentação nada mais do que seu público quer e pode dar, e não os R$ 680,00 por pessoa na categoria tapis rouge, cobrados pelo mega e internacional Cirque du Soleil. Não desmerecendo de forma alguma o trabalho de todos os integrantes dessa trupe-empresa. O trabalho deles é extraordinário, de dom também quase inexplicável, desde a técnica até a logística. Só questiono o porquê de algumas pessoas pagarem os R$ 680,00, satisfeitíssimas, e não o R$ 1,00 certamente muito bem vindo aos artistas dos semáforos, valores esses proporcionais à logística de cada qual.

Os artistas do semáforo escolheram seu trabalho. Sim, escolheram, porque, obviamente, a sociedade e o sistema que a rege (significando sistema econômico-financeiro e mercado de trabalho, com todas as regras que os caracterizam e determinam) lhes oferecem outras opções, como cursar uma faculdade, ou prestar concursos públicos se tiverem a escolaridade exigida, ou talvez enfrentar a concorrência na atividade privada. Não consigo deixar de ironizar, mas talvez, ainda, mendigar um quintal para carpir ou tão somente mendigar, ou, ainda, naquele tempo efêmero do sinal vermelho, durante a madrugada, vender drogas ou assaltar. Minha imaginação ainda permite vislumbrar a delinqüência e o auto-flagelo dos andarilhos e dos meninos e meninas de rua usuários de drogas.

Mas optaram, graças, pela arte e por distrair pessoas sensíveis que ocasionalmente encontram-se detrás de um volante, sabe-se lá com que humor. Só mesmo a sensibilidade permite que aqueles segundos do sinal vermelho liberem nossa mente do estresse do corre-corre nosso de cada dia. A arte em si é terapêutica, quase um convite como o de Camões em sua celebríssima frase: “Cesse tudo o que a musa antiga canta porque outro valor mais alto se alevanta” – sem intenção de literalidade. Adaptando para a sensação no semáforo: “Cesse, por alguns segundos, o estresse até certo ponto necessário, para que eu higienize a minha mente e continue meu labor diário”.

Afirmo que os artistas daqueles segundos coloridos de vermelho apresentam-se para os que tiveram sorte ou azar porque considero sortudos os sensíveis e os bem-humorados. Mas não estaria sendo leal a mim mesma se desconsiderasse a insensibilidade dos que se referem àqueles jovens qualificando-os de “vagabundos”. Recuso-me a comentar porque sou sensível...

Eu pago pelo trabalho deles. Já paguei também pelo tapis rouge. Aos do semáforo, todavia, preciso computar o quanto posso retribuir mensalmente pela higiene mental que me proporcionam porque, afinal, passo diariamente, mais de uma vez, por um semáforo sob o qual alguns deles trabalham.

Retribuo pela higiene mental, como disse.

Retribuo pela coragem.

Retribuo pela simplicidade.

Retribuo pelo desprendimento.

Retribuo pela iniciativa.

Retribuo pela arte.

Na última vez que retribuí, no cruzamento da avenida Vieira Caúla com a Rio Madeira, na cidade de Porto Velho-RO, o jovem artista, despretensiosamente, disse-me: “Obrigado bonitinha”. Putz, ele ainda teve a gentileza de retribuir com um elogio simpaticíssimo. Senti sinceridade e despretensão, o que, diga-se, é peculiar aos artistas, e o que me fez ter o impulso irresistível de escrever o que já estava em meu coração desde minhas passagens diárias por um semáforo na cidade de Ji-Paraná-RO, onde resido.

Além do que, aos 3.6 e três filhos, um elogio sincero e despretensioso é sempre bem vindo!! Hehehehe.

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