domingo, 16 de janeiro de 2011

Sobre livros que não li

Tenho o hábito de ler as sinopses de livros e de filmes que pretendo ler e assistir. Adoro e muito raramente me engano sobre a qualidade.

Segundo uma pequena “chamada” que li em uma revista – Yoga Jornal, dezembro/janeiro de 2011 -, no livro “A arte de viajar”, o filósofo Alain de Botton expõe diferentes destinos de viagens relacionando-os a grandes questões como “o sublime” e “o exótico”, passando por Holanda ou Taiti, mas, ainda segundo a “chamadinha”, ele reserva para o grand finale o que me parece ser um singelo mas significante capítulo sobre a viagem ao redor da cidade, bairro e casa onde ele mora. Com base na obra de Xavier de Maistre – “Viagem em volta do meu quarto”, de 1790 -, que eu também não li, Alain Botton convida o leitor a olhar para a rotina com os olhos curiosos de um turista.

Bem, dito isto, quero explicar que apesar de não ter lido nenhum dos dois livros acima referidos, entendo perfeitamente o que preconizam porque agora nas férias experienciei um ousado e diferente olhar para a minha rotina (mesmo a de férias), o qual, tenho de confessar, deixou-me meio que duvidandoobservandorefletindo sobre o meu comportamento (sou “A louca da casa”?, referenciando outro livro que também não li).

Tinha saído para correr, coisa que amo fazer, embora esteja meio fora de forma desde que comecei a viajar para cursar a faculdade de Psicologia – realmente não dá para ter tudo. Mas, meus queridos, eu corria em uma enorme praça da cidade onde passei toda a minha deliciosa infância. Penso que não imaginam a delícia que é a gente revisitar um lugar (vejam só... um lugar onde sempre vou caminhar ou correr nas férias de janeiro...) e parar, mas parar de verdade para admirar árvores frondosas que têm mais de 50 anos e reparar nas lajotas de cimento que formam passarelas coloridas de amarelo, vermelho, preto e azul. As mesmas árvores e as mesmas cores da minha infância e as mesmas lajotas onde eu brincava de pisar só nas de mesma cor para não ter de pagar prenda.

Tive um impulso de sentar-me sob as copas enormes de uma árvore daquelas. Escolhi a que tinha mais sombra. Sentei e meditei. Depois, não resisti, e deitei por sobre as folhas ainda úmidas de uma chuva fina que caiu durante a noite, abri meus braços e respirei profundamente o cheiro da minha cidade, posso dizer, quase natal. Lembrei da árvore do filme Avatar, lembrei da minha infância, lembrei de Ji-Paraná, e ignorei tudo o mais que estava ao redor. Minha respiração era quase autônoma e buscava sozinha a energia daquelas folhas e terra úmidas, que não eram mais, certamente, as mesmas folhas da minha criança.

Conectar-me com aquele ambiente teve um efeito surpreendente sobre mim. Foi como se eu tivesse sido recarregada de energia, da energia que realmente significa e importa, e que não existe só nas terras daquele chão.

Só voltei do transe – mas quase entrei em outro, hahaha – quando um velhinho aproximou-se de onde eu estava deitada e perguntou todo solícito: “Ow fia, tá tudo bem né?”. Percebendo a aflição dele, tratei logo de sinalizar um “jóia” com o dedão da mão direita, para deixá-lo tranqüilo, mas assim que ele virou as costas comecei a rir por dentro (é, eu consigo fazer isso!), não de deboche, mas de prazer. A simplicidade, o zelo, a natureza e o frescor de uma manhã me enchem de prazer.

Depois, ainda com um novo olhar de turista curiosa, refiz o caminho de volta, sem vanglória, com a consciência diferente da vendedora de água mineral que, nos termos daquela “chamada”, trabalhava no alto da Praia do Leão em Fernando de Noronha. Esta vendedora reclamou das dificuldades de trabalhar naquela imensidão quente, concluindo: “Meu sonho mesmo é conhecer São Paulo. Minha prima voltou dizendo que lá é o lugar mais lindo que existe”. Intrigante, assim como a constatação de psicólogos sociais de que nenhuma viagem é tão boa quanto depois, quando a recordamos...

Então, com a atenção de uma viajante em terras distantes, voltei à casa de meus pais, correndo, e consegui ser a louca da casa.

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