Sabe quando não precisamos mais solicitar, como diz Zeca Baleiro, que retirem os seus piercings do caminho para que possamos passar com a nossa dor?
Quando estamos prontos, cedo ou tarde, para o processo de reconstrução – processo de desenvolvimento pessoal demorado, com custos pessoais e financeiros, e, não tenhas dúvida, doloroso. E, ouso afirmar, que rara e dificilmente poderás empreendê-lo sozinho, sem a ajuda de um mentor (que pode ser um psicoterapeuta, um psicanalista, um coach pessoal ou profissional – conforme a demanda -, ou um orientador vocacional, a depender de que instância holística precise desenvolver ou melhorar).
Minha musa antiga era “telespectadora da própria vida” e foi com essa frase-reclamação que iniciei meu processo de análise há alguns anos atrás. Eu via minha vida em uma tela gigantesca, tal qual a do cinema e, pequena-impotente desconhecedora do meu potencial, nem podia interferir nas “cenas” que precisavam ser editadas. É de pasmar o que podemos fazer e o que podemos não fazer pelas nossas próprias vidas!
O valor mais alto que se alevanta – graças – é a possibilidade de, mesmo um tanto tarde, empreender a reconstrução. E reconstruir, apesar do trabalho e do cansaço inerentes, propicia prazer e felicidade porque é o momento em que, com a maturidade e a autoestima trabalhadas, podemos valorizar o que é essência ou o que está em consonância com a nossa essência.
Há pessoas que, como eu, labutam para reconstruir sua vida profissional. E se refletirmos um pouquinho, não tem muita diferença do caminho trilhado por aqueles que reconstroem, por ene motivos, sua vida pessoal/familiar. Apesar do ser holístico, e talvez por causa dele, é possível separarmos nossas vidas em instâncias que, embora interligadas e interdependentes, demandam diferentes exigências de postura e de dedicação.
Penso que reconstruir a vida pessoal/familiar seja um tanto mais difícil porque, inevitavelmente, as relações afetivas que se constituíram no passado são muito mais complexas que as relações profissionais, e jamais deixarão de existir: ex-marido, ex-mulher, ex-companheiro(a), e filhos, nunca deixarão de sê-lo. E se a união entre duas pessoas, de sexos diferentes ou não, exige muita responsabilidade, maturidade e dedicação, podemos imaginar uma ex-união que demandou, a longo prazo, a aquisição de bens em comum, a constituição de relacionamentos sociais em comum, a criação e a educação de filhos, a convivência entre as respectivas famílias, etc.
Porém, toda reconstrução é válida e de direito.
Mas, enfim, hoje estou para falar da construção/reconstrução de uma vida profissional. Reconstruí-la é deixar para trás ou suplantar relacionamentos estritamente profissionais, embora o conhecimento até então adquirido seja sempre válido e útil; e com as vistas postas no que lhe é peculiar, empreender uma limpeza geral nos gostos, nos costumes, nas crenças, nas ambições, e, principalmente, nos pensamentos, a fim de saber o que é que você tem de melhor a oferecer a si próprio e ao mundo.
Eu não tenho dúvidas de que aquilo que oferecemos é o que nos será dado. E é justamente essa engrenagem cósmica que justifica porque as pessoas apaixonadas pelo que fazem são bem sucedidas física, emocional, social e financeiramente. Elas doam à sociedade, por meio de seu trabalho, o que têm de melhor; e o fazem incansável e zelosamente – são aqueles e aquelas profissionais que seguiram seus mais íntimos desejos vocantes, não se deixando influenciar, quando da escolha da profissão, pela mídia, pelos pensamentos, desejos ou imposição dos pais, pelo retorno financeiro mais fácil e certo em determinada carreira.
Embora eu saiba que só entenderá o que digo quem se viu ou se vê na mesma situação, estou fazendo questão de dizê-lo.
Por primeiro: quando perceberes que se posiciona na vida com o sentimento equivalente à íntima expressão “logo logo serei feliz”, duvide disso imediatamente. Nem em um relacionamento, nem em uma profissão, podemos viver dia após dia na expectativa de ser feliz logo mais. Quando o amanhã deixar de ser parâmetro para suas atitudes, certamente estarás conectado com a tua essência.
Antes de explicitar a minha noção de essência – o que deixarei para um próximo post -, vou logo dizendo, mesmo sem ter fundamentação teórica para tanto - ao menos por enquanto -, que decididamente discordo dos profissionais e dos teóricos em orientação profissional que pregam aos quatro ventos (ouvi no último Congresso Latino-Americano de Orientação Profissional e de Carreira) que há que se buscar o desenvolvimento de competências e habilidades. Pinóia! Continuamos a viver exatamente como na época em que Freud dizia que “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”.
Desenvolvi competências e habilidades para trabalhar com o conhecimento que o Direito me proporcionou, mas não estava feliz, não estava realizada profissionalmente, e isso não tem a ver só com minha autoestima e maturidade. Sempre fui madura e responsável – em algumas situações até demais... eu poderia ter errado mais... Rsrsrs. A autoestima andava sim meio comprometida, mas, sinceramente, diferentemente da incógnita estabelecida na pueril indagação “tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”, minha autoestima estava arranhada porque eu não estava realizada profissionalmente, e não que eu não estava realizada profissionalmente porque minha autoestima estava arranhada... Tentarei explicar.
Minha busca por realização profissional como operadora do direito seria infinita porque eu sempre colocaria minha felicidade para logo mais, mais uma especialização e eu serei mais feliz, mais um curso e então serei mais feliz, mais um cargo e então eu serei mais feliz... Pior é que, sentindo isso, eu me sabotava das maneiras mais encantadoras que uma mulher pode se sabotar: com as funções maternas e com os deveres decorrentes do casamento – os quais hoje, não achando mais que são só meus, compartilho... Rsrsrs.
Sem contar que quando sentava minhas nádegas na cadeira era na raça e na disciplina, nunca por prazer – por mim e para mim -; era para passar em concurso na área do Direito e manter a minha subsistência. Criei habilidades e competências como “concurseira”, tanto que passei três vezes para analista judiciária da Justiça Federal. E por prazer e até altas horas, lia psicologia, sentindo que o conhecimento que me era proporcionado tem um significado maior na minha vida: me encanta, me surpreende, me fascina, me envolve e me impulsiona, mas naturalmente, sem grandes esforços.
Exemplificativamente, temos habilidades, competências e talentos, sendo que o meu talento está na psicologia, e se eu, por motivos ilegítimos e bem distantes da minha essência, quisesse cursar engenharia e construísse um prédio, certamente ele me cairia na cabeça. E assim penso ser com todas as pessoas. Devemos nos esforçar, até enquanto pais e mães que somos ou que venhamos a ser, em buscar autoconhecimento, saber qual é a nossa essência, porque só quando conciliamos habilidade, competência e talento é que conseguimos ser feliz agora, neste momento. E a realização pessoal e financeira é conseqüência.
Quem trabalha na essência tem motivação, inspiração e amor, que impulsionam na aquisição do conhecimento, no desempenho das atribuições, e no contribuir com a sociedade.
Psicologia é uma ciência agregada à profissão mais cotada para o futuro – a de psicólogo(a) – ao lado das profissões ligadas ao meio ambiente, justamente porque o adoecimento mental e a degradação ambiental estão nos setores ligados à vida humana mais precarizados e negligenciados pela atual conjuntura socioeconômica, afinal, o que se prega e o que se adota como verdade absoluta é que devemos – a todo e qualquer custo mesmo - desenvolver habilidades e competências para dar conta das demandas da globalização, do rápido desenvolvimento da tecnologia, da ciência e da economia mundiais.
Não lembro exatamente a porcentagem de aumento das doenças mentais ligadas ao mundo do trabalho, estabelecida em pesquisas veiculadas pela OMS – Organização Mundial de Saúde, mas de tão alarmante, essa instituição internacional estabeleceu diretrizes a serem seguidas pelos países membros, sendo uma delas a criação de centros de tratamento e prevenção de doenças mentais – por isso que o governo federal se empenha em mandar verbas para a criação e manutenção dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), porque é demandado internacionalmente pelas diretrizes da ONU e da OMS.
Com essas premissas pode-se perceber com que facilidade hoje as pessoas se distanciam cada vez mais do que lhes é essencial em termos de existência. O processo de autoconhecimento demanda tempo e interesse unicamente pessoal, e não se tem mais isso não, temos de seguir tentando se engajar no mercado de trabalho, seja fazendo o que queremos e gostamos, seja fazendo o que é apenas acessível ou recomendado, ou o que nossa autoestima permite na ocasião.
Depois de cerca de 25, 30 anos, trabalhando em uma atividade que foi apenas possível ou que o mercado recomendava como rentável ou que a autoestima permitiu, estamos fadados à um contexto de depressão, de síndrome de burnout, de assédio moral e de outras modernas patologias ligadas ao mundo de prazer/sofrimento, que é o do trabalho. Não se está dizendo, por óbvio, que esses males sejam causados exclusivamente pela não realização profissional, mas não estar feliz com seu trabalho pode minar gradativamente a autoestima a ponto do adoecimento a longo prazo.
As pesquisas feitas pelo psiquiatra francês Christophe Dejours comprovam isso.
Cuida-se de um adoecer até então totalmente desprezado. Hoje, ainda é relevado e, quando não, atribui-se ao doente a culpa ou a fraqueza por se encontrar incapacitado ao trabalho. O INSS está abarrotado de pedidos de concessão de benefícios previdenciários por incapacidade, o número de pedidos fundamentados em doença mental aumenta, e o setor de reabilitação profissional ainda não atende nacionalmente de forma satisfatória.
Então, observo, reflito e duvido realmente quando ouço alguém dizer que a orientação profissional deve propiciar o desenvolvimento de competências e habilidades, porque corresponde exatamente a se exigir do ser humano que ele seja de ferro, apesar de ser de carne, osso e alma, ou seja, apesar do ser holístico – biopsicossocial – que tem de ser feliz em um período máximo de 73 anos, que é a expectativa de vida do brasileiro, no caso.
A impressão que se tem é que tudo se cria e nada se resolve.
Ouvi de Seiji Uchida, psicólogo e professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo - FGV, em uma conferência do Congresso acima referido, que ele tem pacientes executivos de alto escalão, aos quais ele diz: “se quer ficar bem, então não falte a nenhuma sessão!”, porque são pessoas que vivem a mil por hora, que ligam para ele de véspera para cancelar a sessão porque no dia seguinte deverão estar em Nova York para um compromisso profissional de última hora.
Para começar, com todo respeito, qualquer profissional psicoterapeuta, na minha concepção, deve auxiliar seu paciente a ser autosuficiente, deve propiciar o autoconhecimento profundo e instrumentalizá-lo para que, depois de razoável tempo de psicoterapia, caminhe com as próprias pernas, seja capaz de se autodeterminar diante das situações-problema diretamente relacionadas com as suas questões. Conclamar para que não falte e que se utilize do profissional como quem se utiliza de uma muleta é, a meu sentir, uma afronta principiológica, excetuando-se alguns casos em que, de fato, o auxílio sempre se fará necessário.
O problema é a absurda tendência de se enxergar a tudo e a todos com uma visão mercadológica.
Mas eu concordo quando Uchida diz do impacto sobre os sujeitos ocasionado pelas profundas mudanças que vem ocorrendo no mercado de trabalho em virtude da crescente hegemonia do capital financeiro – campo de estudo da psicodinâmica do trabalho, que vem descobrindo novas formas de patologias criadas pelos novos sistemas de trabalho. E concordo mais ainda que esse cenário constitui-se no maior desafio dos orientadores profissionais, na medida em que o profissional de hoje tem de ser um nômade.
Isto quer dizer que, o estudante que opta por fazer engenharia, diante do mercado de trabalho, pode não trabalhar construindo prédio, e sim no RH de alguma empresa que lhe pague um bom salário para que ele possa, desvirtuando-se, manter a si própria e à família. Ou pode significar também que ele foi para o RH justamente por não ser vocacionado na engenharia – que cursou por ene motivos não legítimos – e encontra no RH a forma de sobreviver mediocremente – entenda-se fora do que é da essência do indivíduo -, o que para alguns é intolerável a longo prazo.
De toda sorte, o que faço questão de frisar também é que essa visão mercadológica que impregna nossas condutas não tem sentido na escolha profissional, ou pelo menos ideologicamente não deveria ter. Se um estudante procura o profissional da orientação vocacional e lhe diz: “Não posso ver sangue que desmaio, mas quero cursar medicina”, deve ao menos suspeitar de que essa pessoa poderá não ser um(a) bom(a) médico(a).
Sou pragmática o suficiente a ponto de discordar desse discurso do mercado, que prega a desconstituição do sujeito como algo fácil e rápido – como tudo tem que ser hoje em uma sociedade que se pauta pela obsolescência programada, citada por Seiji Uchida em suas explanações. Tudo é feito em série: se compramos um Nintendo DS, logo lançam o Nintendo DS1 e depois o DS2 e assim sucessivamente, do mesmo jeito com os automóveis, com os celulares, com os aparelhos eletrodomésticos (a máquina de lavar roupas da minha mãe tem 20 anos e funciona melhor que a minha – que desde quando casei há 16 anos, deve ser a 4ª ou 5ª máquina). Tudo que consumimos, principalmente em termos de tecnologia, está programado para estar velho em pouquíssimo tempo. Isso deveria estar previsto no Código de Defesa do Consumidor como infração grave... Ai, desculpem, às vezes sou ingênua mesmo... Isso seria uma afronta indescritível e com conseqüências quase inimagináveis à construção ideológica do capitalismo...
Então, seja médico meu caro, não poder ver sangue é detalhe... Hoje você tem de ser médico, se amanhã não der mais, poderá ter as habilidades e as competências necessárias para estar juiz, engenheiro, pastor, dentista, na ordem que preferir, ou até mesmo administrador do hospital em que, por anos a fio atuou como médico, até você (na melhor das expectativas) e/ou os pacientes, perceberem que não és vocacionado...
Ironias a parte, acredito mesmo na vocação, e que um bom trabalho de orientação profissional é aquele que trilha com o cliente o caminho do autoconhecimento ou da reconstrução, propiciando o resgate de sonhos, de desejos vocantes, de ideologias, e o afastamento das crenças que nublam esse cenário identitário promissor e essencial para uma vida feliz.
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