
A primogênita tem 10 anos. E o que a mãe dela esperava nunca existir entre elas, aconteceu: tiveram uma briga que culminou em vias de fato – termo jurídico utilizado para o contato físico hostil, que não chega a ser agressão de que resulta lesão corporal, talvez uma marquinha na alma... No caso delas, entretanto, penso que saíram ilesas física e emocionalmente, e que a genitora não se iludiu acreditando nisso.
Já li em uma latinha da Johnson & Johnson a seguinte frase: “Quando nasce um bebê, nasce uma mãe”, que resume o que se passou entre mãe e filha naquela manhã, pois, apesar de ter sido uma experiência ruim, foi possível perceber que a mãe aprendeu com a filha e com o pequeníssimo drama que vivenciaram – talvez ínfimo diante do que se vê e se ouve passar entre outras mães e filhos. Realmente, ser mãe é um aprendizado.
Quando os três filhos daquela mãe declaram guerra simultaneamente – mas geralmente é de dois por um... sempre tem um deles que assume o estereótipo misto de acusador-defensor-árbitro perante o julgador oficial (que, via de regra, é ela, a mãe) – que fica tão em dúvida, sente-se tão dividida e, portanto, inoperante, tão de mãos atadas, sem saber a quem dar razão, de quem tirar a razão, que raras são as vezes em que tem certeza do merecedor da disciplina.
Aprendi esse termo – “disciplina” - com uma espirituosa garotinha de 3 anos, quando ela disse que na escolinha ela nunca foi para a “cadeira da disciplina” – engraçado, na casa dela eu sei que ela vai sempre... Rsrsrs.
E o choro? Inclusive do ainda-não-identificado merecedor da disciplina, é copioso e digno de muita dó. Com receio, a mãe pensa: “Mas meu Deus eu sou apenas uma... como lido com os três sem ser injusta e arbitrária?”; “Será que estou sendo uma boa mãe”?
Às vezes não, certamente, e principalmente quando os ânimos dos quatro, ou dos cinco, estão alterados... embora no geral percebe-se que eles estão se saindo bem...
Com relação ao episódio supramencionado, cada um dos filhos ganhou uma bola em um aniversário, sendo que a da filha mais velha, e a do filho de 5 anos, eram da mesma cor – amarela -, mas a da primogênita era visivelmente maior. No dia seguinte, o irmão pediu para que sua mãe enchesse mais a bola dele para que ficasse do tamanho da da irmã, o que foi prontamente feito, mas, após várias tentativas, ainda não ficou do tamanho da outra porque não era o caso de enchê-la mais, a bola era realmente menor. Então, talvez vendo a dedicação que a mãe dispensava ao filho, por ciúmes a garota resolveu “infernizar” o irmão, dizendo que a bola dele era a dela, e vice-versa, deixando-o muito irritado. Como ela insistia em irritar o irmão, mesmo com a mãe pedindo para que parasse com aquilo, a mãe resolveu dar razão a ela e concordar que a bola dela (a maior) era realmente a do irmão, ao que, então, vendo que ficaria com a menor, ela voltou atrás e disse que tinha se equivocado. Mas isso depois de ter armado um pampeiro, e com uma carinha deslavada de enervar qualquer um.
A menina pegava a bola maior e mãe pegava de volta, entregando-a ao irmão, e assim sucessivamente até ficarem bastaaaaaaante irritadas uma com a outra. E o irmão esgoelando. Foi quando não vencendo a mãe fisicamente, a menina deu um tapa no braço dela... pela primeira vez... quando a mãe pensou: “espero que tenha sido o primeiro e o último”. Ela não revidou, obviamente, mas falou energicamente que jamais admitiria aquilo, e que era para a filha pedir desculpas antes de ir de castigo para o quarto. Ela foi... sem pedir desculpas...
Passado algum tempo, e vendo que a filha estava chorando, a mãe insistiu nas desculpas, mas começou a briga de novo, quando, então, ela se debruçou sobre a menina, que estava deitada na cama, e disse que só sairia dali (de cima dela) depois que se entendessem. A garota virou “o bicho” e o desespero bateu na mãe, diante do receio de estar errando, que começou a dizer o quanto a amava, tudo que tinha vivido desde o nascimento da filha, coisas que a fizeram ser mais forte e que a impulsionaram até aquele momento, quando então, emocionada, a mãe começou a chorar. De repente, o cenário mudou.
Ainda chorando e debruçada sobre a filha, ela sentiu os bracinhos finos entrelaçarem suas costas e as mãozinhas a afagarem. Nossa! Dá para imaginar a sensação... trocaram de lugar... A mãe sentiu-se tão infantil, e percebeu a filha tão madura e forte. Então a menininha, agora doce, amorosa, e absolutamente segura de si, disse: “Mãe, me desculpa, tá”, continuando a consolar a mãe com seus toques suaves, mas firmes. O alívio da genitora foi tão grande porque, esqueci de dizer, quando a filha estava enfurecida, disse que a odiava. E o respeito da mãe em relação àquela filha também foi tão grande porque com ela aprendeu que uma mãe não precisa ser sempre uma fortaleza, que a gente pode chorar sim, ficarmos sim em dúvida, em desespero, e frágeis.
Ela percebeu quão digna foi a filha, que também soube perceber a angústia dela e sentir empatia. Ela sofreu com o sofrimento da mãe.
Mas o mais interessante, que me motivou a escrever sobre isso porque chamou minha atenção, foi a circunstância de, como em um passe de mágica, todo aquele ódio verbalmente declarado transformar-se em um toque tão caloroso, afetuoso e tão cuidadoso, diante da fragilidade da mãe. Terá sido mesmo fragilidade? Só sei que diante do choro a menina sucumbiu, e foi possível, então, que todo o amor que sentem uma pela outra viesse à tona, contagiando os ânimos tão alterados, até então. Deve ser algum mecanismo psicológico que faz com que uma força se sobreponha à outra, numa escala gradativa e crescente, como que se contrabalanceando, sendo que, quando uma dessas forças, inopinada e bruscamente deixa de existir, a outra também não tem mais porque existir...
Já vi isso antes em outros episódios que não domésticos e familiares, como quando a mulher de Bill Clinton, ex-Presidente dos Estados Unidos, Hillary Clinton, era praticamente invisível à sociedade americana, ou quando não, mal-vista, apesar de ter uma carreira profissional bem sucedida. Era tida como megera que controlava tudo, inclusive o marido. Mas quando a sociedade a viu como mulher-traída (em virtude do malsinado e conhecidíssimo episódio envolvendo seu marido e a secretária), vítimizada por um escândalo de cunho sexual que mobilizou a mídia internacional e os humoristas de plantão, possivelmente ela passou a ser vista como “mulher no seu devido lugar” e agora merecedora da empatia popular. Tanto que a partir de então, teve apoio incondicional na política daquele país.
Paralelo interessante: figuras femininas fortes como Hillary Clinton, Condoleeza Rice, Luíza Erundina, Marta Suplicy, e, em outras épocas, Joana D’Arc, a Rainha Elizabeth, a ex-primeira ministra britânica Margareth Tatcher, Olga Benário, e muitas outras, correspondem a estereótipos bem distantes dos ostentados por aquelas figuras femininas romantizadas dos contos de fadas. Minha nossa, coitada daquela que não espera um príncipe encantado! Dessa geração, que ouvia essas estorinhas, também, quem não espera o príncipe encantado é porque foi desacreditada... e isso também não é bom. Cada um e cada uma deveria ser o que é, e ser o que basta.
Bem, como já estou divagando demais, vou descer de para-quedas da minha nuvem rosa, e terminar este texto com a pergunta que o intitulou: Porque e para que ser tão forte?
Amiga, vc é boa nisso... só começei a ver teus textos e já estou amando... esteja certa de quer serei visita constante por aqui...
ResponderExcluirbjim!
Leide
Tenho certeza de que qualquer um alegaria a sua suspeição... menos eu... Rsrsrsrs
ResponderExcluirObrigada! E continue lendo sim, e melhor, comentando para que eu possa aprimorá-los...