O meu e o seu Deus é bom, onipresente, onipotente e onisciente e, assim, poderíamos supor que não quereria o nosso mal e que ele sabe exatamente como evitar que o mal nos atinja. Mas então porque coisas tão ruins acontecem em todas as épocas, em todos os lugares e com todas as pessoas, como a assustadora chacina na Escola Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro – essa, uma tragédia mais próxima de mim e de você.
O mal é democrático ao atingir adultos e crianças, ricos e pobres, jovens e idosos, ontem, hoje e amanhã, aqui e acolá.
É preciso, talvez para simplesmente desabafar, debater o debate tão debatido filosoficamente acerca da existência de Deus. Sim, do meu e do seu. Se pessoas inocentes sofrem horrivelmente a ponto de algumas jamais se recuperarem do trauma físico e psíquico sofrido é porque, ou Deus quer tanto o nosso bem como o nosso mal, ou Deus não existe (na concepção mais popular de que Ele só quer o nosso bem).
De qualquer forma, insisto em exclamar: Meus Deus, o terrível sofrimento impingido às crianças de Realengo é meu, é seu, é nosso, ou pelo menos deveria ser!
Então, como no nosso íntimo clamamos por Ele, devemos partir do pressuposto de que Deus existe sim, e quer tanto o nosso bem quanto o nosso mal, aprendizes que somos do ensinamento filosófico de que o mal é necessário porque se o Homem não sofrer não conhecerá, verdadeiramente, a virtude e o amor; sem sofrimento não aprenderíamos a suportar a dor e não teríamos como evoluir moral e espiritualmente.
A questão que se faz premente é que, tanto mal assim, impingido por meio de balas de revólveres prioritariamente na cabeça de crianças inocentes, e por meio do desespero alienante que a situação gerou nos sobreviventes, não é compatível com o pregado aprender, pelo mal, a ser bom e melhor em um sentido mais valoroso.
Porque Deus corre o risco de, com tanta permissividade à ocorrência de “males insuportáveis”, desintegrar-nos enquanto frágeis seres humanos?
Ora, Ele nos deu inteligência, e por meio dela a ciência médica descobriu que o “mal insuportável”, quando não causa a morte, causa stress agudo ou stress pós-traumático, dos quais os sobreviventes, como os da escola de Realengo, não irão se recuperar, apenas suportar pelo resto da vida, com ou sem o uso de medicamentos.
É o mal gerando males. E porque e para quê? Além da questão do mal enquanto força que integra a existência humana, tal qual o bem, o amor, a compaixão, a melancolia, a esperança, o desalento e a fé, podemos falar em culpados? Assim, com tanto “mal insuportável”, Deus estaria nos culpando por existir?
Não temos respostas.
Os males que nos são impostos, e que geram outros males, como a destruição de psiques – ou mentes, ou espíritos, ou almas, ou essências ou energias, como queiram -, apesar de não ilidirem a existência de Deus, porque, como já estabelecemos, Ele quer tanto o nosso bem como o nosso mal (nos quer livres), não se justificam, a não ser pelo prisma de que Deus nos presenteou com o livre-arbítrio.
Agora sim, chegamos a um ponto intelectual ou racionalmente aceitável: Deus existe e, apesar da existência Dele, como detentores que somos do livre-arbítrio, o “mal insuportável” justifica-se porque nós mesmos por ele optamos. E agora podemos voltar a afirmação de que o sofrimento das crianças de Realengo é nosso, é sim! Meu e seu!
Sofremos empaticamente a dor dos sobreviventes e a dor das famílias das vítimas falecidas, e os que circunstancialmente podem, tem condutas comissivas para amenizar o sofrimento – ajudam no resgate das vítimas, rezam, levam flores e acendem velas, propiciam acesso a tratamentos médicos e psicológicos.
Mas nosso sofrimento tem o viés de darmos causa, por condutas omissivas, a sofrimentos descomunais, como o das crianças da Escola Tasso da Silveira. E a nossa omissão fica patente, no mal de Realengo, na ausência de respostas plausíveis a algumas indagações que se pode fazer:
Porque um jovem “problemático” morava sozinho, agravando ainda mais seu estado de saúde mental?
Porque um homem de 23 anos, que tinha baixo rendimento escolar desde o primário, que também desde então vivia em um “mundo à parte”, morava sozinho?
Porque um filho adotivo, que quando os irmãos, todos casados, iam até sua casa para confraternizar, “fazia seu prato” e ia se alimentar no quarto, em total demonstração de extrema dificuldade de estabelecer laços afetivos, morava sozinho?
Porque uma vítima de bullying, que esmurrou a parede do banheiro masculino, após ser insultado por uma menina na época em que freqüentava escola, morava sozinho?
Porque um garoto, cuja mãe biológica sabidamente era portadora de esquizofrenia, morava sozinho?
Porque um rapaz de 23 anos, de 2 ou 3 amigos, e que nas pouquíssimas vezes que se comunicava com outros era para dizer que ambicionava ser o autor de um ataque ao Cristo Redentor – símbolo do Rio de Janeiro -, nos moldes do ataque às Torres Gêmeas – símbolo do poder econômico dos EUA -, morava sozinho?
Porque um rapaz, que aos 23 anos trocou namoros e baladas por horas infindáveis e ininterruptas no computador, morava sozinho?
Porque um rapaz de 23 anos, que era proprietário da casa onde morava, que “comia de marmitex” para não sair de casa (entende-se que era para não conviver, não se relacionar com outras pessoas), que tinha seu próprio computador, e dinheiro para comprar armas, munições e outros apetrechos (como aquele que permitia o rápido recarregamento das armas de que se utilizou), morava sozinho?
Porque, na provável condição de saúde mental dele, não fazia tratamento psiquiátrico?
Para cada pergunta que se possa fazer, temos conjecturado nas possíveis respostas, o livre-arbítrio de alguém: alguém-familiar, alguém-amigo, alguém-professor, alguém-colega de trabalho, alguém-chefe, alguém-vizinho, alguém-psicoterapeuta, alguém-ex-psicoterapeuta. Alguém-como-nós. Alguém-como-eu. Alguém-como-você.
A doença mental desse moço, que provavelmente herdou da mãe biológica, é circunstancial e não determinante do “mal insuportável” causado. A mãe dele, esquizofrênica, matou alguém ou impingiu a inocentes terrível sofrimento? Nem livre-arbítrio mãe e filho tinham, porque esse poder Deus presenteou às pessoas que estão em pleno gozo de suas faculdades mentais.
Portanto, somos co-autores de uma barbaridade, omissivos, na medida em que deixamos de agir, deixamos de fazer o que podemos e devemos fazer, e agora, a cada “mal insuportável” a que somos expostos realmente fica o aprendizado de que devemos e podemos ser melhores.
E o ganho filosófico de aprender a suportar (não superar) a dor, de conhecer o amor, de aprender a sermos virtuosos, crescendo moral e espiritualmente, certamente virá aos que assistiram ou souberam da brutalidade na escola Tasso da Silveira.
Alguém-como-nós foi educado pelo mal de Realengo, e aprendeu com a lição horrorosa que, ao contrário do livre-arbítrio, a generosidade não é espontânea, a generosidade é uma conquista diária – sermos generosos para com o próximo implica em nos educar para aceitarmos o diferente, o que é muito difícil e provavelmente não foi conseguido pelas “meninas da vida do atirador da Escola Tasso da Silveira”.
Foi a doença mental do atirador ou o nosso livre-arbítrio o responsável pelo mal que entristeceu Realengo e o Brasil?
Restou-nos o duro aprendizado de que precisamos ser alguém-generoso para com nossos semelhantes, precisamos ter tempo e disposição para o sofrimento alheio, e com esse aprendizado, resta-nos agora rezar para que ao menos o luto dos familiares seja feito a contento, resta-nos chorar os nossos mortos e torcer para que os sobreviventes tenham ou desenvolvam a capacidade de suportar traumas.
Deus existe sim, e nos escancara que, em última análise, ao nos relacionar com o outro, precisamos acreditar na nossa própria morte.