Oi mãezinha, há quanto tempo. Sinto meu coração apertadinho por não ter estado mais próxima de ti porque sei que não é a distância física que determina o quão próximos estamos de alguém.
Mas posso dizer que talvez essa distância foi que propiciou nosso encontro, adiado há exatos 20 anos. Desculpe a demora, mas como você bem sabe, podemos escolher um destino, mas o caminho não podemos traçar meticulosa nem deliberadamente.
Da última vez que verdadeiramente nos encontramos eu te neguei, para o nosso bem. Eu ainda não estava pronta, embora hoje perceba claramente que meus alicerces já tinham sido montados.
Esta não é para ser uma carta de cobranças, muito menos de perdão. Estamos quites mãezinha, desde nosso entendimento ao telefone e desde agora, quando ao me reencontrar, por mais que pareça estranho, encontro você.
Mas preciso me despedir.
Despeço-me daquela que me parecia, na vez primeira, a pessoa mais dura e inflexível do mundo, para hoje encontrar minha mãe paradoxalmente frágil e aguerrida.
Despeço-me daquela que me parecia rude e insensível, para hoje encontrar minha mãezinha com a sua história, com a sua Existência, e poder te dizer com muito amor e gratidão que eu te reconheço e aceito. Na verdade, sempre te busquei de forma equivocada e pelos caminhos que não me levaram a ti.
Te quis perfeita, invariavelmente amável e carinhosa, intelectualmente ativa e sempre presente. Como eu nem consegui ser todas as vezes. Exigi demais de ti, de nós duas, embora saibamos que nosso dever como seres humanos é sim buscarmos a excelência porque somos à imagem e semelhança de nosso Senhor.
Despeço-me daquela que eu considerava sem noção e infantil, para hoje encontrar minha mãe adorável, brincalhona, sincera e habilidosa com as pessoas.
Despeço-me daquela que me dava medo e me envergonhava, para te encontrar mãezinha, no fio da navalha, driblando a sua dor, e ainda assim, pouco sucumbindo às vicissitudes.
Para te encontrar, fora do ponto cego, digna, forte, valorosa e mais, muito mais do que fiel, leal.
Despeço-me daquela que me afligia com seus choros e estado nervoso, para encontrar uma mulher autêntica, que se assume.
Fácil perceber, mãezinha, como foi difícil eu te encontrar e me reencontrar.
Vinte anos para que eu pudesse de fato mudar minhas percepções, tirá-las do inconsciente e perceber que eram infantis, de quando eu não tinha capacidade cognitiva para elaborar meus sentimentos em relação às suas atitudes.
Vinte anos para eu te entregar esta carta, que, como eu disse, não é de cobranças, acusações ou de perdão. Talvez para dizer, ainda timidamente, que agora posso te ajudar, nos ajudar. Permita-me, sim, o farei como a mim mesma!
Mas pode ser, para que eu seja justa contigo, uma carta de agradecimento.
Minha criança te agradece pelas infindáveis historinhas que você nos contava, pelas musiquinhas antigas, pelas cantigas de roda, que me faziam pensar, imaginar, elaborar.
Minha criança te agradece pela comida deliciosa, pelas bolachinhas de nata, pelas fatias húngaras, pelos bolinhos de chuva e pela chocolatada. Pelos momentos prazerosos em família, que pudemos desfrutar porque você não media esforços para preparar nossas refeições.
Minha criança te agradece por ter me ensinado celebrar a vida, sempre e apesar das circunstâncias.
Minha criança te agradece pelo chokito que você levou na minha sala da pré-escola porque tinha saído com meu irmão e comprado um para ele. Sem saber, plantou em mim a sementinha da justiça.
Minha criança te agradece por ter permitido, instintivamente, que eu sentisse o teu cheiro – quando estavas perfumada para sair ou quando estavas suada depois de lavar roupas -, que eu sentisse a tua pele, brincando de me oferecer os peitos para mamar e de fazer barulho na tua barriga.
Minha criança agradece a tua fortaleza porque hoje, adulta, sei o que ela te custou.
E hoje, um pouco mais amadurecida, eu te agradeço por ter me devolvido.
Por ter me mostrado quais eram os seus e os meus limites.
Por ser a minha mãe!
Eu te amo mãezinha querida!
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
O amor faz crer e desacreditar de tudo
"O amor nos faz crer e desacreditar de tudo...
Acreditar e descrer novamente...
Crer para ver... e ver para crer...
Tal qual a Psicologia!
Ahh, quando fevereiro chegar!"
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Good night, God!
Apesar de alguns sufocos
e alguma dor pelo auto-conhecimento
Nesta delícia de vida
Eu não me reconheço!
e alguma dor pelo auto-conhecimento
Nesta delícia de vida
Eu não me reconheço!
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